Por que o e-commerce brasileiro ainda não entendeu o valor real das redes sociais

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Por que o e-commerce brasileiro ainda não entendeu o valor real das redes sociais

e-commerce brasileiro | Imagem de justynafaliszek no Pixabay

Depois de anos trabalhando com marketing digital e, especialmente, após aprofundar minha formação em MBA em Marketing e Mídias Sociais, cheguei a uma conclusão incômoda, mas necessária: parte do e-commerce brasileiro ainda não entendeu o papel real das redes sociais. E isso não é apenas uma questão operacional, mas também uma questão estratégica.

A impressão que tenho ao entrar em reuniões com e-commerces de todos os tamanhos é sempre a mesma: redes sociais continuam sendo tratadas como vitrines estáticas, quando deveriam ser o motor vivo de relacionamento, dados e conversão. 

É como se as marcas estivessem presas a um modelo mental dos anos 2010, em que o Instagram servia apenas para “postar fotos bonitas”, o Facebook para “divulgação” e o TikTok para “viralizar”.

O problema é que nada disso sustenta resultados reais e muitos não percebem.

Redes sociais não são catálogo, mas sim comportamento

A partir da minha experiência prática, com 14 anos atuando na área, e também da bagagem que levei do MBA, ficou evidente que as redes sociais não funcionam mais como um canal de exposição. Elas funcionam como ambiente de tomada de decisão. É ali que o cliente compara, questiona, valida, rejeita e, principalmente, cria vínculos com marcas.

Portanto, quando um e-commerce usa as redes sociais apenas para anunciar produtos, perde aquilo que as torna mais poderosas:

  • O diálogo diário;
  • A coleta de dados comportamentais;
  • O entendimento de objeções;
  • A criação de comunidade;
  • Construção de confiança;
  • Influência direta na jornada de compra.

Ou seja, tudo o que realmente move a conversão.

O erro estrutural: achar que rede social é sobre conteúdo

Muitas empresas seguem produzindo conteúdo apenas para “manter a frequência”. Postam porque “tem que postar”. Publicam artes frias, textos genéricos e vídeos desconectados da realidade do consumidor. É quase um gesto automático e, por isso mesmo, desperdiçado. Uma pena desperdiçar algo que pode ser tão valioso.

O que aprendi acompanhando dezenas de projetos de e-commerce é simples: rede social não é sobre conteúdo. É sobre contexto. É sobre estar presente no momento certo, com a mensagem certa e no formato certo.

Mas isso exige mais do que criatividade: exige leitura de dados, testes, escuta ativa e coragem para abandonar fórmulas prontas.

A lógica do funil foi invertida e poucas marcas perceberam

Nas redes sociais, o funil tradicional (atrair → considerar → converter) funciona ao contrário. Muitas vezes, o usuário converte impulsivamente primeiro e só depois vai conhecer a marca, acompanhar o perfil, entender seu posicionamento, avaliar a qualidade e decidir se volta a comprar. Você mesmo já não teve essa prática?

Quem não entende essa dinâmica perde oportunidades todos os dias no e-commerce brasileiro.

Isso significa que as redes sociais são, ao mesmo tempo, topo, meio e fundo de funil. Significa também que qualquer conteúdo pode gerar conversão, mas desde que conecte emocionalmente com os problemas, desejos e as dúvidas do público.

A verdade desconfortável: o problema não é alcance, é a intenção

Tenho visto e-commerces gastarem energia (e orçamento) tentando aumentar alcance orgânico quando, na prática, o que falta não é gente vendo o conteúdo. O que falta é intenção.

Intenção de compra nasce de:

Por que o e-commerce brasileiro ainda não entendeu o valor real das redes sociais
Imagem gerada por IA

Nenhuma dessas coisas nasce de uma vitrine. Todas nascem do relacionamento, concorda?

Redes sociais são, antes de tudo, dados

Outra barreira que encontro frequentemente é a dificuldade das empresas em usar redes sociais como fonte de dados acionáveis. Comentários, respostas em caixinhas, engajamento espontâneo, DMs e reações negativas, tudo isso é ouro. É pesquisa de mercado gratuita, mas grande parte das marcas ignora.

Talvez por falta de estrutura, por falta de compreensão ou talvez por insistência em olhar métricas superficiais. O fato é: quem não entende o que o cliente diz abertamente nas redes, jamais vai conseguir converter com consistência no e-commerce.

O futuro não é de quem posta mais, mas é de quem escuta melhor

Se existe algo que minha formação em marketing e mídias sociais me ensinou, é que as redes sociais não são sobre performance isolada. São sobre percepção, relações e sobre reconhecimento.

Então, enquanto o e-commerce brasileiro continuar tratando esses canais como uma vitrine e não como um organismo vivo da jornada de compra, vai achar que “não funciona”, que “não dá retorno” e que “não compensa investir”.

Mas o problema nunca foi a plataforma. O problema é a mentalidade e essa é a parte mais fácil, e mais difícil também, de mudar.

Como mudar esse cenário no e-commerce brasileiro: redes sociais além da vitrine

O e-commerce brasileiro ainda mede o sucesso por likes e impressões. Mas isso é subproduto e não indicador. A métrica que transforma o negócio é formada por:

  • Respostas,
  • Comentários qualificados
  • DMS iniciadas
  • Salvamentos
  • Clicks com intenção
  • Conteúdos que levam a buscas pela marca
  • Usuários que voltam a interagir espontaneamente.

Entenda que audiência sem impacto é só barulho. Mas, qual é a saída? Alguns passos são importantes, como:

Criar conteúdo baseado em perguntas reais e não em calendário interno

Todo bom conteúdo nasce de uma dor real. E nas redes sociais, o cliente entrega isso de graça, todos os dias. A base do conteúdo deveria ser:

  • Comentários
  • DMs
  • Pesquisas internas
  • Avaliações
  • Objeções coletadas pelo SAC
  • Dúvidas do pós-venda
  • Comportamento dos anúncios
  • Conversas nos stories

Quando a conversa vira conteúdo, a conversão vira consequência.

Transformar redes sociais em um laboratório de dados

As redes sociais são a maior ferramenta de pesquisa que o e-commerce já teve. Só que muitas marcas não as utilizam com esse intuito. O que eu aplico, e recomendo a qualquer negócio, é transformá-las em um ambiente de teste permanente. Para isso, considere:

  • Testar produtos novos via enquetes.
  • Validar preços antes do lançamento.
  • Avaliar embalagens e ofertas via stories.
  • Perguntar preferências de cores, tamanhos e modelos.
  • Criar protótipos rápidos com UGC.

Isso reduz erros, economiza verba de mídia e aumenta previsibilidade.

Use corretamente seus conteúdos

Além disso, pare de tratar conteúdo como decoração e comece a tratá-lo como ativo. Afinal, conteúdo não é enfeite, mas sim deve ser tido como aquisição, retenção, conversão, branding e diferenciação.

Com o MBA, aprendi a ver um conteúdo como um ativo estratégico que aumenta o lucro da empresa ao longo do tempo e não como um custo. Esse é o ponto que separa negócios amadores de negócios consistentes.

Portanto, assuma que o jogo mudou e que hoje já não dá mais para jogar com as regras antigas. As redes sociais estão mais rápidas, mais visuais, profundas e ainda mais competitivas.

Porém, tenha em mente que elas ficaram mais humanas e isso deve ser seu ponto chave. 

Então, as marcas que entenderem esse movimento e mudarem a ‘lógica de vitrine’ vão conseguir dominar o mercado nos próximos anos. 

Entenda: a oportunidade está escancarada no e-commerce brasileiro, mas faltam profissionais que queiram agarrá-la, de fato.

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